QUEM DIRIA? MAS É POR UMA BOA CAUSA.

Nos idos de 1984,  eu era uma adolescente sem muitos amigos populares no colégio; apesar de alguns deles me zoarem nas aulas de educação física – o famoso bullying de hoje – eu me autoclassificava como “invisível”. Para quem não entende esta minha classificação, são os adolescentes que não são populares, mas também não são alvo de bullies diários. Portanto, “invisíveis”.
Restava-me então o shopping e cinema com minhas amigas também “invisíveis”, os livros, os meus discos e a TV.
Na época, a TV Gazeta tinha um programa que se chamava “Crig-Rá”. Não me lembro de onde saiu o nome, mas era uma produção da Olhar Eletrônico, então um bando de descolados independentes que resolveram colocar a galera para pensar. O Marcelo Tas interpretava tanto o “Bob McJack”, uma sátira aos VJs da MTV (que nem existiam por aqui na época) quanto o “repórter Ernesto Varella”, a Sandra Annenberg fazia as matérias de rua, e até o Fernando Meirelles fazia alguma coisa, mas eu não lembro o que… E através do “Crig-Rá” eu me tornei, a minha maneira, uma adolescente descolada.
Ao invés dos clips que as outras emissoras reprisavam infinitamente, o “Crig-Rá” se dispunha a falar um pouquinho de política e cultura. Cultura Pop, claro.
Foi assistindo ao “Crig-Rá” que eu tive contato pela primeira vez com a que é hoje, a maior banda do mundo: U2. Ainda me lembro do domingo em que eles começaram a passar um documentário sobre a gravação do álbum que colocou o U2 ao alcance do resto do mundo, “The Unforgettable Fire”. Eles passaram o documentário em partes, durante alguns domingos.
Lembro-me que dias depois eu já estava nas Grandes Galerias, ali no centro, do lado da 24 de Maio. Consegui comprar o “disco” importado, e comprei o “War” também. Minha mesada iria toda em música, se eu não me cuidasse.
Na época, o U2 tinha fama de contestador, simpatizante do IRA, ou pelo menos assim a imagem deles era vendida. Eles nunca confirmaram isso, mas “Sunday, Bloody Sunday” deve ter sido a “causa” do blablabla. Eu não acredito, acho que eles simplesmente escreviam sobre fatos políticos que fizeram parte de suas próprias adolescências. Assim como o Legião Urbana.
Os anos passaram, o U2 passou de banda independente a establishment, o Bono encarnou o ativista político que sempre quis ser.
Então, qual não foi minha surpresa ao vê-lo, ao lado da esposa, num anúncio da Louis Vuitton?
Nada contra a Louis Vuitton, pelo amor de Deus. Além de ser fã do U2, eu AMO a Louis Vuitton. Mas sempre achei que ele fosse contra estes arroubos consumistas – se bem que, ultimamente, todo o visual de seus shows é “griffado”.
O único problema é que agora, além de comprar os CDs e DVDs do U2, quero comprar a bolsa com bag charm também. Afinal, é por uma boa causa e até está na hora de comprar uma Keeppall – um dos modelos de bolsa de viagem da marca, para quem não sabe. Mas doeu quando vi o preço. Ugh!
Ao comprar a Keppall Edun ou o chaveirinho que está na bolsa da Ali, esposa do Bono, a LVMH destina parte da receita para a Edun, que dedica-se a incentivar a educação de crianças, entre outras atribuições, através do apoio as cooperativas de algodão em Uganda. Mas vale lembrar que a LVMH – proprietários da Louis Vuitton – detém 49% da Edun. É uma “for-profit” fashion company.
Enfim: eu adoro o Bono – mesmo quando ele começa com os discursos políticos chatos; adoro a Louis Vuitton e fico feliz que alguém mais olhe para a África.
Afinal de contas, rock e moda sempre andaram de mãos dadas não é mesmo???

Sobre Anninha

Além de viciada em cultura pop, ainda resolvi bancar a mochileira depois do 40 - e comer pra caramba, já que é para isso que eu treino Crossfit. Divirtam-se!
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